SSVP Brasil: 150 anos de caridade e amor aos Pobres

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Enfim, chegaram os 150 anos da SSVP Brasil. Uma data, um marco, motivo de júbilo, felicidade, festa, mas também de renovação de compromisso. Como todos ou muitos sabem, no dia 4 de agosto de 1872, foi fundada a Conferência São José, a primeira do Brasil, que marca oficialmente o início das atividades da SSVP no país.

 A preparação para a instalação dessa Conferência se deu aos 19 de julho de 1872, quando alguns leigos foram convidados pelos padres Lazaristas para um jantar no Seminário Diocesano de São José. Naquele momento se encontravam, entre outros, o conceituado médico Dr. Pedro Fortes Marcordes Jobim, o advogado Dr. Antônio Secioso Moreira de Sá e o Dr. Francisco Lemos Farias Coutinho, também conhecido como Conde de Aljezur. Depois do jantar, um dos presentes, motivado, talvez, pelas celebrações em louvor ao ‘Pai da Caridade’, referiu-se às maravilhosas obras que, em diversos países, a Sociedade de São Vicente de Paulo vinha desenvolvendo em favor dos Pobres, e acrescentou que estava realmente surpreso em saber que não existia, ainda, uma Conferência no Brasil.

Diante de tais ponderações e movidos por inspiração divina, o Conde de Aljezur, que era o fundador da primeira Conferência em Portugal, e os confrades Pedro Jobim e Antônio Secioso, que já haviam frequentado Conferências na Europa, decidiram, então, fundar uma em terras brasileiras. O primeiro Presidente foi o confrade Francisco, que nomeou os confrades Pedro Jobim, para secretário, e Antônio Secioso para tesoureiro.

De lá para cá, muito foi feito. A Sociedade só cresceu e hoje o Brasil é o maior país vicentino do mundo. São mais de 15 mil Conferências e mais de 120 mil confrades e consócias espalhados por todo o nosso país. 

Num passado não tão distante… 

Se hoje, em 2022, a tecnologia nos conecta mais facilmente aos rincões do nosso país e é uma aliada dos trabalhos e ações da SSVP, até um passado não muito distante não era assim. E muitos desafios precisavam ser superados, como hoje. E em épocas em que a comunicação não era fácil e nem ágil, os vicentinos precisavam se desdobrar para fortalecer a SSVP, manter acesa a chama dos ensinamentos de São Vicente de Paulo e de Frederico Ozanam e fazer a caridade chegar aos Pobres. 

O ex-presidente do Conselho Nacional do Brasil, Carlos Henrique David, conhecido como Kaike, que conduziu a gestão de 2001 a 2005, lembra algumas peculiaridades daquele tempo. “Eu fui, na época, o mais novo presidente nacional da SSVP, entre os países. Tinha 31 anos e uma responsabilidade muito grande. Eram vários os desafios. Buscávamos uma unidade maior da Sociedade, enfrentávamos grandes questões administrativas e financeiras. Com apoio da diretoria, dos Conselhos Metropolitanos e vicentinos de todo o país, conseguimos fazer o apoio ao trabalho das Comissões de Jovens, da Ecafo, das Conferências de Crianças e Adolescentes e das nossas Obras Unidas. Fizemos questão de ir a locais que o CNB nunca tinha ido até então, como o Acre e muitas cidades pequenas, aproximando-o das pequenas comunidades. Fizemos grandes parcerias de doação, como com a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e da Pastoral da Criança, que levou 1 milhão de toneladas de alimentos, doados pela empresa Nestlé, à área do semiárido e do Vale do Jequitinhonha. E tudo isso foi feito numa época em que a maioria da comunicação era feita, creiam, por cartas, correspondências e telefonemas”, lembra ele, um dos mais antigos presidentes do CNB ainda em atividade. 

Kaike foi presidente do CNB de 2001 a 2005

Uma caminhada que enche de orgulho quem faz parte. A Conferência São José segue em atividade e seus membros fazem questão de honrar e agradecer essa história. “Muito me emociona de fazer parte da primeira Conferência do Brasil, em saber que mesmo com tantos anos de existência, ela está de pé com o propósito iniciado por São Vicente de Paulo e abraçado de forma maravilhosa por Ozanam. A Conferência São José está completando 150 anos e fico pensando como serão os próximos 150 anos que estão por vir. Maravilhoso isso! Costumo dizer uma frase que minha sábia mãe falava: ‘não viemos à vida a passeio’! Certamente que não viemos mesmo! Estamos neste mundo para somar e multiplicar ações positivas e que possam trazer alento a quem precisa”, afirma a atual presidente da Conferência, consócia Anna Beatriz Dutra Lopes Guarilha. 

1ª Conferência do Brasil ainda segue em atividade, a presidente Anna (de casaco branco) destaca o orgulho de fazer parte

Amor Infinito

Às vésperas de completar 103 anos, seu José é um dos vicentinos mais antigos na ativa

Muito mais do que números, a SSVP do Brasil, ao longo de sua história, mudou e transformou vidas. Não só a de assistidos, mas de seus membros. Como é o caso do confrade centenário José Oliveira de Assis, um dos mais antigos membros na ativa. O morador da pequena cidade de Perdões, em Minas Gerais, completa 103 anos em 2022, sendo quase 94 dedicados à SSVP.

Em entrevista, intermediada pelo amigo e pupilo, confrade José Maria Selvati Pádua, ele lembra como conheceu a SSVP e se apaixonou. “Eu ia à missa com a minha mãe e, ao terminar, via uma turma de homens que se reunia na sacristia. Eram as Conferências Perpétuo Socorro e Senhor Bom Jesus, da qual faço parte até hoje. Devia ter uns 20 membros em cada, naquela época. Eu tinha nove anos e me interessei. Comecei como aspirante e nunca mais saí até hoje”, conta. 

José Oliveira conta que ainda criança, por causa dos vicentinos, aprendeu a lidar com a pobreza de forma natural. “Levava doação de dinheiro, de medicamentos aos Pobres e ajudava na higiene pessoal de acamados. Eu era criança ainda e os adultos me levavam para acompanhar a entrega das doações. Isso ensina muito”, recorda. 

Hoje em dia seu José não consegue mais ir até as reuniões, mas uma vez por mês recebe em sua casa seu amigo José Maria, atual presidente da Conferência, e alguns outros membros. “Ele tem um amor infinito pela SSVP. Ele é um exemplo a ser seguido. Foi ele que, em 1988, me chamou para fazer parte da Sociedade. É um professor. Enquanto a saúde possibilitou, ocupou vários cargos na Conferência e sempre cobrou assiduidade. Ele raramente faltava às reuniões. Isso só acontecia quando tinha que viajar com a banda da cidade, da qual era maestro”, explica o atual presidente e amigo.

Reunião da Conferência na casa do seu José, organizada pelo amigo e presidente José Maria (atrás de camisa social clara)

E quantas histórias de amor vamos encontrar ao andarmos pelo interior, capitais e litoral do nosso vasto país? Não somos o maior em números vicentinos à toda. O brasileiro é conhecido mundialmente pelo espírito caloroso e pela receptividade. “Fizemos tanto em 150 anos e temos tanto ainda a fazer. O Brasil é um país imenso, mas ainda cheio de desigualdades. E o trabalho vicentino não pode parar. Temos que levar alimento do corpo e do espírito para aqueles que necessitam. Temos que seguir dando oportunidade para aqueles que normalmente são esquecidos. Temos que festejar nosso passado e nos preparar para o futuro”, define o confrade Márcio José da Silva, presidente do Conselho Nacional do Brasil.

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