Na SSVP Brasil, a espiritualidade e a ação caminham juntas. O desafio de equilibrar oração e serviço é constante, mas essencial para manter viva a missão vicentina. Para entender melhor essa dinâmica, conversamos com o Padre Ramon Aurélio, Assessor Espiritual do Conselho Metropolitano (CM) de Ouro Preto/MG, e com Matheus Domingues de Lima Maciel, Coordenador do Departamento de Comunicação (Decom) do CM de São Paulo.
A oração como base do serviço vicentino
Para Matheus, a oração é a linha mestra da caridade e precisa estar presente em todos os momentos da vida vicentina. “Busco ter uma vida de oração diária e incluí-la na minha rotina como algo permanente, tanto na preparação de atividades quanto nas visitas.”
A oração, segundo ele, é um compromisso tão importante quanto as reuniões de conferência e as ações sociais. “Se não houver dedicação, o risco é deixá-la de lado. Por isso, organizo minha agenda para que ela não seja um apêndice, mas uma prática constante.”
O fruto desse equilíbrio é perceptível na evangelização. “O contato com a Palavra de Deus me dá repertório para os momentos de evangelização com as famílias assistidas e para lidar com desafios dentro do Conselho e da conferência”, explica.
O Padre Ramon reforça essa ideia ao destacar que a espiritualidade é um dos pilares fundamentais do vicentino. “A espiritualidade é o eixo norteador da vida cristã. É através da oração que o ser humano consegue rezar sua própria vida e os acontecimentos que o envolvem. Sem esse olhar, não há um vicentino autêntico.”
O perigo do ativismo sem espiritualidade
Um dos grandes desafios apontados pelo Padre Ramon é o risco de cair no ativismo burocrático, perdendo a essência da missão vicentina. “Muitos vicentinos se envolvem em diversas atividades e demandas estruturais, mas acabam se afastando da visita aos pobres e da verdadeira essência do serviço. Sem uma espiritualidade viva e encarnada, o trabalho vicentino se torna um ativismo vazio.”
O Papa Bento XVI já alertava sobre esse risco ao afirmar que a ação caritativa deve ser um serviço espiritual. “Sem a oração cotidiana vivida com fidelidade, nossa ação perde o sentido profundo e se reduz a um simples ativismo que, no final, nos deixa insatisfeitos.”
Dicas para integrar oração e serviço
Para aqueles que buscam um equilíbrio entre fé e ação, Matheus sugere duas palavras-chave: organização e simplicidade. “Sem organização, a espiritualidade pode acabar ficando em segundo plano. E a simplicidade, ensinada por São Vicente, nos ajuda a inserir a oração no dia a dia de maneira natural. Se complicarmos, será difícil manter esse hábito.”
Já o Padre Ramon aconselha os vicentinos a seguirem o método de oração ensinado por São Vicente de Paulo. “A oração é o pulmão do vicentino. Sem essa prática, os serviços caritativos perdem o sentido. Para aprofundar a vida espiritual, é essencial buscar leituras espirituais vicentinas, refletir sobre as cartas dos nossos fundadores e, principalmente, viver a experiência da missão junto aos pobres.”
O chamado para uma espiritualidade encarnada
O equilíbrio entre oração e serviço não é uma meta inalcançável, mas um convite diário à vivência da fé. Como lembra o Padre Ramon, “o crescimento na fé acontece no encontro com Jesus Cristo. Todo encontro verdadeiro com Ele muda a direção da nossa vida. E esse encontro se dá no serviço aos pobres”.
Aos vicentinos, fica a reflexão: a oração e o serviço não são caminhos opostos, mas complementares. Um não pode existir sem o outro. Afinal, como diz o Bento XVI, na catequese sobre a primazia da oração, “a ação caritativa é, ao mesmo tempo, um serviço espiritual, já que, para realizá-la, o cristão deve nutrir uma íntima relação com Deus”.