Uma perspectiva vicentina sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021

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Artigo de: Pe. Hugo Silva Barcelos, CM.

V CAMPANHA DA FRATERNIDADE ECUMÊNICA
Tema: “Fraternidade e Diálogo: Compromisso de Amor”
Lema: “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14a)

Desde 1964, a Igreja no Brasil celebra a Campanha da Fraternidade. Destas mais de cinquenta campanhas, neste ano, celebraremos a V Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE 2021), cujo tema é “Fraternidade e Diálogo: Compromisso de Amor”, e o lema “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14a). A Quaresma é um tempo forte na nossa caminhada de fé. É também este tempo forte em nossa vida de discípulos-missionários de Jesus, em nossa missão vicentina e eclesial. Por conseguinte, preparamo-nos para celebrar a Páscoa do Senhor, a vitória da vida sobre morte! Mas antes, é necessário, mais uma vez, colocarmo-nos num caminho de conversão integral: pessoal, eclesial e social. A CFE 2021 é um meio necessário para esse processo. Este tempo litúrgico se abre com o convite: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Essa conversão só será legítima se for profunda; na medida em que, tocados pela graça de Deus, renovando nossa experiência do encontro pessoal com Cristo, “rasgarmos os nossos corações e não a vestes” (Jl 2,13). Conversão é processo constante, é mudança de perspectiva, de mentalidade, é deixar morrer a velha humanidade e renascer com Cristo, como uma nova criatura. É ressignificar o nosso olhar e a nossa postura sobre o mundo e o outro, na perspectiva do Mistério Pascal de Cristo, ou seja, é “revestir-se de Cristo” (Rm 13,18).
O texto-base deste ano “convida as comunidades de fé a realizarem o caminho de Emaús” (CFE 18) fazendo quatro paradas, a saber, a primeira é “‘o Ver’- um convite para conversarmos sobre os acontecimentos mais recentes que marcam nossa história e observar se as alternativas e saídas que identificamos são opções coerentes com a Boa- Nova do Evangelho” (CFE 19); a segunda é “‘o Julgar’- é a possiblidade de, a partir da inspiração bíblica, lançar luzes sobre o contexto vivido por nós.” (CFE 20); a terceira é ‘o Agir’- indica “exemplos para derrubar os muros das divisões” (CFE 21); e a quarta é “‘o Celebrar’- momento de afirmar que a diversidade presente na Criação não é negativa, mas é a revelação da imensa e irrestrita amorosidade de Deus para a humanidade” (CFE 22). Neste nosso pequeno artigo, consideraremos alguns elementos do texto-base da CFE 2021, na perspectiva do nosso carisma. O que aqui colocarmos, não é conclusivo, trata-se de lampejos que podem e devem ser enriquecidos com a vivência pessoal, vicentina e eclesial de cada um que lê-lo.
A Paixão e a morte de Jesus, sem a experiência pascal, traz aos cristãos de outrora e aos de hoje sentimentos de desânimo. Assim foi com os discípulos de Emaús que, ao comtemplarem o seu mestre morto no madeiro, viram-se obrigados a voltar para Emaús (Lc 24,13). Esse percurso de retorno não é algo meramente geográfico. É uma forma de expressar sentimentos e motivos, que tiram sonhos e perspectivas, que impedem de prosseguir, impondo a necessidade de voltar para o mesmo lugar, abandonando um processo que aparentemente fracassou.
O ano de 2020 foi de muitas cruzes, mortes e desânimo, devido a pandemia da COVID-19 e agravado pelo contexto sócio-político-econômico, no qual estamos inseridos. Presenciamos milhares de mortes e o colapso no sistema de saúde. Estamos fartos dos discursos negacionistas. Presenciamos a violência, o racismo, o feminicídio, o desemprego e a pobreza aumentarem. Toda essa realidade que nos afeta e nos distancia também trouxe e acentuou novas divisões, devido aos “muitos muros construídos: do racismo, da desigualdade econômica, da dificuldade de conviver com opiniões diferentes, de desrespeito e ataques às instituições” (CFE 42). Prova disso é a “contra campanha”, que insurge nas redes sociais se opondo à CFE 2021, desmerecendo o CONIC, desqualificando a autoridade do magistério, a de nossos bispos e a da CNBB.
Se todo este contexto nos deixa atônitos, desanimados, tentados a desistir, não poucas vezes, o nosso coração também arde (Lc 24,32). Ficamos inquietos e desejosos de continuar anunciando Jesus Cristo, o evangelizador dos pobres, seu projeto de amor, fraternidade, onde, para além da cruz, da dor, da morte, da violência, do preconceito, da pobreza está a vida nova, plena e digna de sua Páscoa. A Ressurreição se torna esse grande horizonte e meta que norteia a nossa caminhada, já no aqui da história humana. A CFE 2021 denuncia, chamando de “muros”, as várias estruturas que fortalecem a cultura do ódio, da intolerância e da injustiça que fere e mata tantos irmãos e irmãs, sobretudo os mais pobres. Propõe um caminho de fraternidade e de diálogo ecumênico, de convivência interreligiosa, de superação da violência, mormente contra a mulher, por meio das missões ecumênicas e da consciência urgente do cuidado com a casa comum que constrói pontes. Temos um verdadeiro manual de mudança sistêmica, ou de estruturas, que é a nossa metodologia, como Família Vicentina, para a evangelização e a promoção dos pobres.
Como então assumir, percorrer e realizar este itinerário que nos é proposto pela CFE 2021, na perspectiva vicentina? É tempo de renovar nossa vida, vocação-cristã-vicentina, fortalecer nossas bases, nossos grupos, por meio da oração, da formação integral e permanente, abrir nossas portas para que mais pessoas possam somar conosco e compartilhar o ideal cristão-vicentino. É tempo também de planejar. Para tal, precisamos ter um bom conhecimento da
conjuntura atual, de suas forças de resistência e de crescimento. Na composição do nosso plano de ação, poderemos propor ou participar de projetos de promoção humana, sobretudo dos pobres, em vista da realização do nosso carisma. Projetos que podem ser ecumênicos, sem dúvidas, pois há várias igrejas e instituições que comungam da nossa mesma perspectiva missionária. É tempo de superar divisões, preconceitos e de nos abrirmos ao diálogo e à alteridade, que encontra na diversidade a força potente que motiva a construção de pontes e de caminhos, para que o Evangelho se realize em nossa história. Celebremos, então, a CFE 2021, percorrendo este caminho quaresmal de conversão rumo à Páscoa do Senhor.

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